quarta-feira , 12 dezembro 2018

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IN NOMINE BELIALIS – Black Metal em sua mais pura essência

agosto 16, 2018 10:10 pm by: A+ / A-

Incitando a rebelião e entoando as totais glórias a Belial, esta horda de demônios já blasfema há muito tempo na cena mineira. Tendo sua trajetória marcada pelas sombras de satanás, pela profanação contra as imbecilidades sacras e especialmente pela total abominação das doutrinas cristãs. Em um conversa extremamente longa e esclarecedora o grande brother King Abiorix nos revela suas desgraças e pragas…!

01 – Saudações guerreiro! Em primeiro lugar agradeço pela atenção em responder a esta entrevista. Bom, o In Nomine Belialis já possui uma longa história de quase vinte anos na cena underground. Nesse tempo inteiro o que a banda colheu de positivo e que legado você acham que já construíram para a cena?

King Abiorix – Saudações irmão! É uma grande honra poder responder estas perguntas e também podermos elucidar um pouco mais acerca dos anseios e vivências do In Nomine Belialis Agradeço mais uma vez a oportunidade e o apoio! Juntos somos mais fortes! Sim, o tempo passa rápido e este ano o In Nomine Belialis completou dezessete anos de existência nessa terra amaldiçoada. Em toda a nossa história posso dizer que colhemos muitas coisas positivas, especialmente no tocante à integridade e ideologia no Black Metal. O In Nomine Belialis surgiu com o intuito de expressarmos nossos mais negros e abissais sentimentos acerca desse mundo e principalmente numa proposta de confrontar toda a espécie de religiosidade institucionalizada, crendices pérfidas e debilidade do ser humano em geral.

Este surgimento se deu em 2000, numa época em que ostentar uma atitude underground e viver de acordo com este ideal era uma guerra sem precedentes. Eu mesmo só passei a integrar a banda em 2010, muito tempo depois, mas sei bem o que digo, pois vivi praticamente o mesmo processo em outras bandas igualmente relevantes, em outra localidade. Eu e o baterista e fundador do In Nomine Belialis (Nefastus Porphir), já conversamos muito sobre isso, sobre a história da banda e seus desdobramentos, então posso com propriedade representar estes fatos que de certa maneira foram uniformes para muitas bandas que surgiram neste mesmo período e ainda se encontram na ativa… Esta guerra se dava diariamente, uma vez que as condições para ensaios, produção de materiais, composições eram muito precárias. Além da inexperiência de nossa parte, também havia as limitações financeiras e temporais, que mesmo assim não foi empecilho para que em 2003 a banda lançasse seu primeiro material oficial, a demo “Sons do Inferno”. Superando todas as adversidades e instabilidades de formação, novamente a banda se mostra poderosamente através do lançamento do álbum de 2006 chamado “Nefasto Caminho da Profanação” que também contava com a referida demo citada acima.

Este lançamento fora feito totalmente independente pela banda, assim como a primeira demo, na raça, em uma tiragem bem limitada. Em 2009 mais uma vez, através do EP “Por Satanás”, vem o In Nomine Belialis destilar o seu veneno à cristandade imunda… De 2010 a 2012 tivemos um hiato na produção de materiais, culminando com um período de intensas instabilidades dentro da banda. Este consequentemente fora o período em que eu me juntei a mesma e a assumi como se fosse minha também. Passei a integrar o círculo interno do In Nomine Belialis e aos poucos fui ajudando na reconstrução e na reformulação da banda, uma vez que a situação tornou-se insustentável. Assim sendo, ficamos “parados” por quase um ano. Quando decidirmos voltar às atividades, chamamos Demogorgon para assumir a outra guitarra e nos fechamos em um trio: Nefastus Porphir na bateria e vocal, K.W.V.A. (eu) na guitarra e vocal e Demogorgon na guitarra e backing vocals. Assim, tudo voltou a fluir novamente… Em 2013 voltamos a tocar ao vivo e relançamos o álbum “Nefasto Caminho da Profanação”, numa qualidade superior em parceria com o selo Deathtime Records. Este ano marcou a primeira apresentação da banda fora de MG… ao nos apresentarmos no Metal Devastation Fest em Vitória-ES. Foi um grande evento, com grandes bandas, sem dúvida nenhuma uma das oportunidades mais insanas que tivemos de demonstrar nossa arte para além das Minas Gerais, abrindo assim outras oportunidades para tocarmos em outros estados que aconteceriam futuramente.

Em 2014 batalhamos incessantemente na gravação do Split “Ravenous Darkness” que fora um grande lançamento… O primeiro que fizemos sob a égide dos selos Beliorum Records e Folkvangar, ambos selos do baterista Nefastus Porphir e do Guitarrista K.W.V.A. Esta fora uma parceria de imenso sucesso com a banda Patria, que são nossos aliados desde então e a qual já nutríamos uma grande admiração por seu engajamento no cenário, lançando incessantemente inúmeros materiais e apresentando-se em vários shows com exímia performance. Além disso, tivemos a honra de tocarmos mais uma vez fora de MG em dois excelentes eventos. Primeiramente no VIII Sábado Negro Festival, com as bandas Arkanus Ad Noctum e Devil, evento este organizado por ti em parceria com os irmãos ai de vossa cidade (Teresina-PI)… Saiba que este ato fora um dos mais grandiosos e inesquecíveis para nós. E depois em São Paulo – SP no III Bestial Holocaust, evento organizado por um grande irmão e que também fora de suma importância para nossa jornada… 2015 foi um ano em que nós mais uma vez tivemos que lidar com outra mudança de formação. Infelizmente Demogorgon decidiu seguir o seu caminho, mas sua saída foi totalmente amistosa e ainda hoje mantemos pleno contato e amizade. Logo, convidamos P. Jaued para assumir o baixo e decidimos continuar como trio, mas dessa vez com uma formação completa. Neste mesmo período imergimos para a composição do que viria a ser nosso próximo álbum e também tivemos que dar uma parada nas atividades, devido ao nascimento de meu filho. Retornamos às atividades em 2016 já decididos a gravar o próximo CD “La Messe Noir”. Fizemos alguns shows também e demos uma modificada no visual da banda, afim de estarmos mais próximos dos temas abordados no álbum.

Felizmente também conseguimos uma parceria com o selo Cogumelo Records para o lançamento deste mesmo material, que ocorreu no final do ano… Inicialmente fizemos uma edição especial, um box, em homenagem aos dezesseis anos de existência da banda e logo a seguir, no início de 2017 lançamos oficialmente o CD… 2017 foi um ano muito movimentado para nós até então, uma vez que tocamos várias vezes neste primeiro semestre com a finalidade de divulgarmos o álbum. Temos tido uma excelente resposta até agora quanto a isso e já estamos engatilhando as próximas composições para um vindouro trabalho. Logo, finalizando tua pergunta, além de todos os feitos e conquistas mencionadas acima, temos construído um legado de imenso valor, honra, integridade e representatividade nestes quase vinte anos de atividade. Ostentamos a bandeira opositora e de certa maneira somos remanescentes de um movimento surgido aqui mesmo nas Minas Gerais nos anos 80, 90 e também no início do século XXI. Black Metal é o caminho que escolhemos trilhar, a jornada escura que nos leva a estarmos sempre desenvolvendo esta arte em prol do underground e de nossos irmãos e aliados. Ave Belial! Rege Satanás!

02 – Rapaz … essa com certeza foi a maior resposta já emitida por alguém na história do Pecatório zine. Poderia encerrar a entrevista aqui porque você já esclareceu praticamente tudo hahahaha. Tem conteúdo para mais de mil perguntas ai… Mas vamos a primeira eu me vem à mente: você disse que abraçou a banda como se fosse sua; como é essa relação de entrar em uma banda que já tem uma certa estrada e assumi-la sem restrições? Sentiu-se um estranho no ninho em algum momento?

King Abiorix – Sim irmão. No início de minhas atividades na banda eu me senti sim totalmente estranho, pois mesmo com minha amizade com o baterista, ainda sim eu estava entrando em algo que já caminhava e vivia pelas próprias pernas há muito tempo. Conviver com outras pessoas (as quais eu não conhecia muito bem na época) e ter que me adequar à proposta da banda foi um período bem complicado. Eu também já tinha tido outras bandas, mas antes, em praticamente todas as que eu havia participado, possuía um papel de maior importância. Quando entrei no In Nomine Belialis em meados de 2010, entrei apenas como guitarrista, ocupando uma posição secundária, uma vez que o grupo já tinha basicamente todos os seus objetivos e boa parte das composições já feitas. O que fiz foi viver um dia após o outro, me dedicar a pegar as composições, aprimorá-las e aos poucos passei a desempenhar funções mais importantes…

Exemplo, em 2010 mesmo, tivemos uma grande oportunidade de tocarmos em um evento onde fomos a banda de abertura, nos trinta anos da Cogumelo Records, com Mortuary Drape e Watain. Neste evento eu já mandei o vocal em um cover que fizemos para a música “Black Vomit”do Sarcófago… Logo a seguir, passamos a ter alguns problemas dentro da banda onde dois dos antigos membros saíram. Então, ficamos só eu e o batera. Sentamos, conversamos, discutimos e chegamos a conclusão que a banda necessitava de mudar tudo; uma reformulação completa. Foi onde passei a assumir esse papel primário, assumindo as composições, dividindo os vocais e introduzindo o idioma Inglês nos trabalhos vindouros e algumas passagens em Latim com mais proeminência. Depois dessas ações nós só temos colhido grandes feitos como foram ilustrados na pergunta inicial da entrevista.

03 – Foi bom você mencionar a inclusão das letras em Inglês no trabalho da banda que historicamente se consagrou com as letras em Português. Quero saber porque essa alteração e qual a aceitação ou não dos apreciadores da banda em relação a essa mudança?

King Abiorix – Bom, inicialmente a proposta inicial era a de compor e executar os hinos em Português, em homenagem a nossa língua pátria e também para dar uma característica mais singular à banda. Com o tempo sentimos a necessidade de incluirmos outras linguagens, principalmente para podermos expandir nossos horizontes e também deixar nossas músicas mais malignas. Primeiramente foram alguns covers que introduziram o idioma In-glês na banda, especialmente a versão de “Nightmare” no EP “Por Satanás” de 2009 e depois a música “Black Vomit” (ambas do Sarcófago) no relançamento do álbum “Nefasto Caminho da Profanação” (lançado em 2013) cujo cover fora originalmente executado ao vivo no final de 2010 em uma de nossas apresentações ao vivo. A necessidade de se trabalhar com vários idiomas se dá no sentido de propagar a ideologia e sonoridade da banda para além de nosso território.

Já há algum tempo que nós sentíamos a necessidade de poder levar o Black Metal da banda para nossos aliados e admiradores de outros países. Então nossa primeira experiência propriamente dita neste sentido aconteceu no Split “Ravenous Darkness”, que lançamos em 2014 juntamente com a banda Patria (que também possui suas letras em inglês). Num primeiro momento, obviamente que algumas pessoas estranharam, pois anteriormente a banda só executava suas composições em Português e o baterista Nefastus Porphir era o único vocalista. Após a minha entrada decidimos testar a possibilidade de dividirmos os vocais e aplicar o idioma inglês, já que sou professor desta matéria. A mudança foi nítida e nos fortaleceu ainda mais, pois desde então eu pude deixa-lo mais a vontade para executar passagens mais complexas de bateria, assim como também trabalharmos melhor as músicas em geral, como, por exemplo, incluirmos os backing vocals em uma boa parte delas.

Independentemente desse estranhamento tivemos uma ótima resposta de nossos aliados e admiradores, pois é nítida a evolução da banda se comparada ao passado longínquo onde tudo começou. Além disso, as mudanças de formação também contribuíram imensamente para tudo isso que veio a acontecer… Novas cabeças pensantes na banda, novos objetivos e uma determinação ainda maior para fazer com que tudo se concretizasse da melhor forma possível dentro de nossas possibilidades. Então em 2015, começamos a compor o material que viria a se tornar o álbum “La Messe Noir”. Neste trabalho eu tomei a liberdade de sugerir o tema da “Missa Negra”, que originalmente se tornou muito famoso na França do século XVII e assim também para o mundo todo, especialmente nos séculos vindouros.

Logo, pensamos e decidimos incluir também o latim em nossas músicas e temáticas de uma maneira mais efetiva. Tudo isso se somou muito positivamente para a música título e consequentemente para todo o álbum, tornando-o extremamente maligno e tétrico. A força desses idiomas antigos e até mesmo alienígenas pode ser totalmente comprovada quando aplicados corretamente… Eu particularmente acho que no Black Metal tanto o latim, quanto o inglês se encaixam muito perfeitamente. Além disso, decidimos também manter as composições em português, pois não desejamos de forma alguma nos desligarmos de nossas raízes e da proposta inicial da banda. Esta é uma fórmula que tem funcionado muito bem para nós e assim pretendemos mantê-la para os próximos álbuns e composições.

04 – E qual foi a repercussão deste álbum “La Messe Noir”? Existem planos para uma turnê de divulgação deste material, aliás é possível uma turnê nos dias atuais vividos pela cena brasileira, com crise econômica e escassez de público?

King Abiorix – A repercussão até agora tem sido muito boa irmão. Esse álbum é sem dúvidas um dos pontos altos da história da banda. Até agora a resposta tem sido imensamente positiva por parte de nossos aliados e admiradores. Inclusive, antes mesmo de lançarmos o material oficialmente como CD, fizemos uma edição especial no final de 2016, um box que contém o cd, camisa, pôster, adesivo e a própria caixa em si, estilizada com o logotipo da banda. Para você ter uma ideia, fizemos cem boxes. Os primeiros cinquenta, através de uma pré-venda, se esgotaram em aproximadamente um mês. Com este lançamento rapidamente surgiram inúmeros convites para shows. Tocamos em quatro datas diferentes neste primeiro semestre de 2017, divulgando insanamente o álbum. Primeiramente no evento Metal Eterno II, na Fofinho Rock Bar em São Paulo-SP, no dia 29/04/2017 (evento este que também contou com as bandas Aka Funeral, Dagonia, Sulphrus Lord, Endless Carnage e Primitive).

Logo após esta data tocamos no evento Come to the Sabbat III, no Berimbau Rock Bar em Contagem-MG, no dia 20/05/2017 (também com as bandas Uraeus, Witchcross, Punho Destruidor e Freezeng). Em terceiro tocamos no evento Metal Hordes Fest XVII, no Stadium Music Bar em Juiz de Fora-MG, no dia 10/06/2017 (com as bandas Velho, Mystifier, Profane Art, Mortifer Rage, Blasphemical Pro-Creation, Solve Et Coagula, Orthos, Opus Secretus e Suicidown). E finalmente, o último show da tetralogia… Malefic Cold Weather IX, que aconteceu no último dia 15/07/2017, no Mineiro Rock Bar em Osasco-SP (com as bandas Dark Paramount, Fenrir, Chesed Geburah e Nashamah). Todos estes eventos foram especiais. Excelentes bandas, organização satisfatória, uma verdadeira união de hordas que batalham assim como nós para poderem expor sua arte de uma forma digna e direcionada. Nem tudo que acontece nessas ocasiões é perfeito, sempre há alguns aspectos que fogem ao controle, imprevistos… Mas o que realmente importa é o resultado em si, a manutenção do cenário underground Brasileiro, que sempre nos surpreende com excelentes atuações, muita disposição e raça para fazer a coisa acontecer. E nestes dias hodiernos, nos brindando com excelentes materiais de estúdio, feitos de maneira altamente profissional e bélica. Neste sentido, mesmo com a crise e com as dificuldades que nos acometem todos os dias, pois nenhum de nós vive de música, conseguimos cumprir essa tarefa hercúlea que é a de nos mantermos firmes e cada vez mais poderosos tanto nas execuções ao vivo, quanto nos lançamentos e propósitos dedicados a esta arte que tanto nos é estimada… O verdadeiro Black Metal!

05 – As primeiras cópias de “La Messe Noir” vieram em uma caixinha e de MDF personalizada com o logotipo da banda e contendo além do cd, um poster, uma camisa é um adesivo. Claro que isto se constitui em um atrativo a mais para o público que obviamente tende a adquirir o material para ter acesso a estes souvenirs que são limitados. Já vi bandas serem atacadas e chamadas de posers como o Heia, por exemplo, porque se bem me lembro de mandarem confeccionar umas bolsas ou mochilas com o logotipo da banda. O que tu pensa a respeito disso? É uma falsa polêmica? Quais tipos de recursos ou estratégias são válidos para divulgar o material de uma banda?

King Abiorix – Bom, em primeiro lugar eu acredito que não haja uma fórmula nesse quesito. Tudo é muito relativo, depende de banda para banda, pessoa para pessoa, especialmente de uma proposta coerente e amadurecida, de acordo com os ideais envolvidos. O que tentamos fazer no caso do In Nomine foi dar vazão a um desejo antigo que tínhamos de lançar o nosso material numa edição luxuosa e limitada, algo que pudesse agregar ainda mais valor ao lançamento (entenda-se aqui valor não somente no sentido monetário, mas sim valor no sentido de algo realmente importante e único). Assim sendo, atingimos totalmente o objetivo, pois além de termos conseguido fazer isso (o que não foi fácil), ainda conseguimos concluir a tarefa com muito esmero e também a um preço extremamente acessível para as pessoas que nos apoiaram nisso. Como resultado, em aproximadamente um mês, já tínhamos vendido cerca de cinquenta boxes através de uma pré-venda que decidimos fazer com a finalidade de controlarmos todo o processo e revertê-lo para podermos quitar os gastos que tivemos com a gravação, desenvolvimento e prensagem do material. Dentro do Black Metal, sabemos que qualquer coisa é motivo para se criar polêmicas e falácias, especialmente vindas de muitas pessoas que não fazem absolutamente nada e gostam mesmo é de ver o “circo pegar fogo”.

Já vimos da noite para o dia bandas sérias e respeitadas se tornarem alvos deste tipo de ardil, normalmente fomentado por pessoas covardes e invejosas e que possuem rixas ou diferenças pessoais com as mesmas… Nunca frente a frente, sempre atrás de um computador e através de redes sociais. Enfim, no final das contas vejo por ai essas mesmas pessoas apoiando inúmeras bandas estrangeiras que fazem coisas muito piores, mas denegrindo as de nosso cenário, onde a máxima deveria ser a união, o apoio, ao invés da discórdia. Quanto ao que vale ou o que não vale varia de banda para banda, acho sinceramente que não haja uma fórmula para isso, mas sim uma atitude coerente. Eu sinceramente não faria um merchandising fútil ou algo que pudesse atrair uma atenção negativa para a banda. Portanto iremos sempre investir no tradicional, no que nossos aliados e admiradores irão sempre apoiar: boxes, camisas, cds, patches, adesivos, bottons…

06 – Você mencionou um ponto interessante em sua fala: “no final das contas vejo por ai essas mesmas pessoas apoiando inúmeras bandas estrangeiras que fazem coisas muito piores”. Eu por exemplo já vi um desses grupos virtuais detonar uma banda que no início teve a infelicidade de dividir palco com uma banda white metal. Ao mesmo tempo esse grupo ostentava em sua foto de perfil o logotipo do Mayhem que possui um integrante que já gravou disco com banda white metal. O que leva a esse tipo de comportamento?

King Abiorix – Acho que em grande parte isso se deve ao nosso processo histórico e de colonização. Infelizmente temos sempre a tendência a criticar extremamente tudo o que é natural e oriundo do nosso país. Agora com relação aos estrangeiros, tudo é sempre mais “brilhante”, tem uma atmosfera mais “insana”… Enfim, coisas que eu percebo nitidamente hoje em dia. Eu também já pensei dessa forma inclusive, mas a maturidade e a vivência felizmente me possibilitaram uma análise e senso crítico profundo sobre essas questões. Acho que todos nós podemos cometer erros e eles certamente fazem parte de nosso aprendizado e crescimento. O grande problema é continuar a cometê-los, sem uma autoavaliação decente e coerente sobre os mesmos. Em nosso cenário e em nosso meio as pessoas estão muito condicionadas a seguir um “dogma”, um “código de conduta” que em muitas vezes acaba por ser totalmente contraditório. Um grande exemplo é o que você citou acima.

Eu vejo isso o tempo todo… Críticas e falta de apoio a bandas nacionais que fizeram isso, fizeram aquilo (pois obviamente estão mais próximas e mais facilmente vulneráveis a ataques) e nenhuma crítica a bandas internacionais que vem tocar aqui em nossas terras (como estão distantes e raramente ficamos sabendo das presepadas, essas acabam por ser idolatradas em sua grande maioria). Portanto, passei a me preocupar muito pouco com o que a maioria das pessoas pensa ou dizem, pois de uma forma ou de outra você sempre acaba sendo um alvo de críticas e também fofocas que infelizmente transbordam em nosso cenário. O In Nomine já trilha seu próprio caminho há muitos anos independentemente das opiniões e aprovações alheias. Importamos-nos sim com aquelas pessoas que estão sempre a nos apoiar, as que comparecem sempre aos nossos shows, aguardam ansiosamente por nossos lançamentos e mantêm contato constante, mas isso de uma maneira totalmente espontânea, transparente e principalmente motivacional.

07 – Importante a sua observação quando menciona que se importa com quem lhe apoia. Eu vejo da mesma maneira. As pessoas que merecem nossa atenção são aquelas que nos ajudam na batalha diária dentro da cena. Não adianta mudar para tentar agradar os que não nos apoiam. Até porque isso seria bastante artificial não é mesmo?

King Abiorix – Sem dúvidas irmão. Na verdade, inicialmente tudo o que fazemos é voltado para nossos próprios intentos enquanto indivíduos. Nunca ficamos pensando em agradar ninguém, até mesmo por que ter uma banda de Black Metal Extrema no Brasil vai praticamente de encontro a tudo o que conhecemos e é considerado “certo”. É a satisfação pessoal mesmo que move, que motiva e nos tem dado forças para seguir em frente, em um estilo que com o passar dos anos acabou por se tornar algo “comum” e “banal”. Hoje em dia todo mundo tem acesso, qualquer um consegue escutar e comprar material. É só acessar o Youtube, a internet e todos os álbuns estão lá (para baixar ou comprar)… Isso gera um sentimento confuso, contraditório, de achar foda e uma merda ao mesmo tempo… Reconheço a importância da propagação da informação, da dissolução da ignorância, mas ao mesmo tempo quando penso no passado vejo que era algo muito mais inóspito, verdadeiro, seletivo e poderoso fazer parte de algo que não era lugar comum para ninguém… É óbvio que ainda hoje em dia não é para todos, mas o acesso se tornou muito mais fácil.

É por isso que sou um nostálgico, talvez anacrônico… Enfim, ainda acredito que muitas das coisas que fazíamos antigamente possuíam muito mais eco, muito mais transparência do que as que são feitas hoje em dia… Aquela magia de se lançar um material mesmo que em condições precárias, de ouvir um som sozinho na escuridão ou nos ermos, de divagar perdido na noite, isso infelizmente se foi… Ao mesmo tempo, não sou de ficar me lamentando e também querer reviver algo que já ficou para trás. Acredito que mesmo em tempos atuais é possível sim fazer música extrema honesta e desafiadora… Não estamos ai para sermos cordeiros ou comerciais… Queremos ver o “circo” pegar fogo… Queremos propagar o caos e a escuridão… Trazer à tona sentimentos que perturbam e levem aos nossos irmãos e aliados a questionarem tudo e a todos… Questionarem esse mundo pérfido e amaldiçoado em que vivemos… Buscarem forças para superarem todas as suas adversidades… Encontrarem aquilo que haja de mais poderoso em seu âmago…

É disso que se trata o In Nomine Belialis. É disso que se trata nossa temática. E nessa jornada, nada mais importante do que reconhecer e poder retribuir às pessoas que lhe apoiaram, ajudaram e acompanharam e ainda acompanham. A banda já passou por muita coisa… São dezessete anos de existência. Estar ainda no gás e sentir-se totalmente apto a continuar e a fazer ainda mais pelo Underground Nacional para nós é uma honra inestimável. Quando olho toda a caminhada que já fizemos e onde estamos agora, tenho uma certeza absoluta de que tudo valeu demais a pena!

08 – As coletâneas eram uma ótima forma de divulgação do som das bandas underground. Algumas dessas coletâneas inclusive se tornaram clássicas. No atual momento ainda vale a pena ou faz algum sentido manter certas práticas e atividades como lançar coletâneas?

King Abiorix – Com certeza! Acho que o verdadeiro espírito underground deve sempre prevalecer ante as mudanças e novidades. Coletâneas, zines, flyers, cartazes, posters, tapes, vinil, cds, reuniões, shows… O Metal foi fundamentado sobre estes meios de comunicação e divulgação da arte negra e assim deverá ser até o fim dos tempos. Na verdade, acho que tudo que vier para somar e trazer mais enobrecimento sem sombra de dúvidas irá agregar, mas não podemos esquecer jamais de onde viemos e para que viemos. Em nossa humilde concepção aquilo que é justamente o tutano sobre o qual nós nos estabelecemos deve ser defendido com unhas e dentes. Qual é o sentido de se fazer música extrema, se aquela atmosfera sombria, inóspita e desoladora não existir?

Se o desafio, as dificuldades, o medo do desconhecido não se fizerem presentes? O Metal Negro jamais será música de massas, música banal e comercial… Sempre haverá o questionamento e a adversidade inclusa… E é disso que também se trata o In Nomine Belialis, Arte Extrema, Individualista, Inóspita e Absoluta! Uma descida aos nove círculos infernais onde haverá transcendência e sabedoria para aqueles que tiverem a audácia e ousadia de adentrarem os portões do Hades.

09 – “Não podemos esquecer jamais de onde viemos e para que viemos”. Palavras suas que eu assino embaixo. O Metal, o underground, assim como outras coisas, possui uma tradição. Falta às novas gerações mais apego a essas tradições? Você percebe o mesmo interesse em conhecer a história do estilo que se ouve nas circunstâncias atuais?

King Abiorix – Sim nobre, demais! Infelizmente dadas às condições em que hoje nos encontramos acredito que essa tradição foi de certa forma preterida pela velocidade, quantidade e facilidade da informação veiculada. Logo, fica muito complicado hoje em dia manter uma coerência e especialmente uma identidade, uma vez que somos constantemente bombardeados com “novidades”, que muitas vezes não traduzem ou criam um sentimento mais poderoso com relação à ideologia a qual se preza. Enfim, nos tornamos de certa forma imediatistas, respondendo apenas aos estímulos quantitativos que chegam até nós.

Aquela espera, expectativa, ansiedade por um novo lançamento, shows, zines, informações sobre as bandas foi totalmente substituída pela exposição desenfreada, o que acaba por destruir o mistério, a atmosfera sombria e inóspita que existia antigamente dentro do Metal Extremo, especialmente no tocante ao Black Metal. Não há de forma alguma interesse em se conhecer a história do estilo, das bandas, e até mesmo coisas simples que faziam toda a diferença, como pegar um encarte de um vinil, cd, ler as letras, ouvir aquele som inúmeras vezes buscando uma expansão ou imersão em sua atmosfera… O âmbito digital infelizmente nesse sentido possui um viés extremamente negativo em minha opinião.

10 – EM 2014 o In Nomine Belialis tocou em Teresina. Que lembranças você guarda daquele evento e da viagem como um todo?

King Abiorix – Bem nobre irmão, guardo as lembranças mais vívidas e excelsas desta ocasião que certamente para nós do foi um dos eventos mais fodas que tivemos a honra de participar. Fomos muito bem tratados por vocês, com imenso respeito, honestidade, com toda a estrutura e aparato fornecida, o que proporcionou uma apresentação digna de nossa parte e a sensação de dever cumprido. Geralmente, quando somos convidados a participarmos de eventos fora de nossa cidade já fica aquela sensação de desconfiança e incerteza, mas em vosso caso como já eras conhecido de longa data de Demogorgon, além de outros irmãos que também já conhecíamos ai oriundo de vossas terras, aceitamos prontamente, pois sabíamos que se tratava de algo grandioso e honesto. E esta opinião é da banda como um todo.

Tal ocasião é sempre lembrada e mencionada aqui em nossas reuniões e ensaios, pois serve de exemplo para como se deve organizar e realizar eventos de Metal Extremo aqui em nosso país. Há também outros irmãos que assim como você sempre honraram a palavra e nos proporcionaram apresentações também memoráveis, mas com certeza a que aconteceu ai na cidade de Teresina-PI para nós ficou na história e nas nossas memórias. Esperamos um dia podermos retribuir à altura, trazendo as bandas dai para cá em um evento com as mesmas condições ou então até melhores. Enfim, algo que se acontecer pode ter certeza que será para ficar na memória e na história também! É um de meus sonhos futuros.

11 – Nem sempre as bandas passam por experiências positivas quando são convidadas a tocar. Alguns organizadores entendem que basta marcar a data do show e a banda que se vire com o resto. Aí se a banda pede alguma garantia para não ficar na pior já é logo adjetivação de poser, estrela, e outras coisas mais. O que pensa a respeito disso?

King Abiorix – Sinceramente meu nobre, hoje em dia dadas às responsabilidades e obrigações de todos os integrantes da banda, não apenas no In Nomine Belialis, mas em todas as bandas as quais eu faço parte, não há sequer a possibilidade de participar de eventos de índole duvidosa ou com organizadores amadores… Portanto, eu procuro sempre obter maiores informações sobre a organização dos eventos, assim como as bandas participantes também (pois acredite, o que mais dá problema nisso são muitas vezes as outras bandas participantes e seus “detratores” que sempre de alguma maneira tentam manchar a imagem dos eventos com suas fofocas e intrigas covardes). Este contato geralmente é sempre feito de maneira extremamente cordial e respeitosa, especialmente com pessoas que já possuímos alguma história ou conhecimento prévio.

Organizações de índole duvidosa ou “entusiastas” sinceramente são dispensadas logo de início. A vida tem se tornado muito corrida e com muitas dificuldades para que simplesmente entremos em “aventuras” de pessoas despreparadas e que acham que fazer Metal de verdade é fazer “caridade” hehehe… Não há garantias é lógico. É uma relação de respeito e confiança que se estabelece. O que sempre pedimos é que a organização do evento nos proporcione condições aceitáveis de apresentação, com uma aparelhagem e local decente para nós e para nosso público também, assim como que as nossas passagens sejam custeadas e pelo menos um lugar para podermos esticar os ossos após a apresentação. Não cobramos cachê nem nada, além disso. Mas respeito quem o faz, pois se colocarmos na ponta do lápis, para se manter uma banda underground não é nada fácil.

Há muita coisa envolvida, muitos gastos. Enfim, cada banda possui um posicionamento nesse sentido. Este tipo de pensamento não aconteceu do nada e nem agora. Foram muitos anos e várias experiências negativas que foram moldando o modus operandi das bandas que participo e também contribuindo para esta visão que temos atualmente. No passado, quantas e quantas vezes ficamos jogados ao relento e tivemos que nos apresentar em condições deploráveis, em eventos que muitas vezes foram manchados dada a má índole e falta de caráter de pessoas que se diziam “organizadores” de eventos. Não é soberba, muito menos atitude “poser” e sim amor próprio e respeito pela arte que fazemos e a qual temos a mais profunda devoção.

12 – Meu irmão, eu agradeço pela atenção em responder esta entrevista. Espero vê-lo em breve e também assistir a mais alguma ou algumas apresentações da In Nomine Belialis. Se quiser acrescentar mais o espaço é seu.

King Abiorix – Agradecemos imensamente a oportunidade de podermos expor um pouco de nossa filosofia aqui em vosso zine. Que tenhamos a força e a sabedoria de nos manter triunfantes e vitoriosos em vida e assim permanecermos aqui egrégios e eternos, mesmo após a nossa morte. In Nomine Belialis Nefastus Porphir – Baterial/Vocal/Temática K.W.V.A. – Guitarras/Temática e P. Jaued – Baixo.

Contato: www.facebook.com/innominebelialis/

Por: Carlos Alberto Soares (Pecatório Zine)

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