domingo , 19 novembro 2017

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ROBSON “DESGRAÇA” COSTA – tradição e inteligência em prol do Metal

março 28, 2017 7:30 pm by: A+ / A-

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Conheci o Robson há bastante tempo atrás quando ainda morava em Salvador, não me recordo em qual show. Mantivemos contato e ele chegou a colaborar esporadicamente com meu antigo webmagazine, MetalVox. Robson é um fanzineiro tradicional, ou seja, prefere o formato impresso e sinceramente o parabenizo pela resistência. Particularmente aprecio muito o seu trabalho assim como de outros guerreiros; agora algo o distingue dos demais: sua percepção contundente sobre a cena. Sem papas na língua e com uma inteligência acima da média produz matérias que nos levam à reflexão, e isto é raro no meio, muito raro. É fato notório que não é muito chegado às facilidades que a internet indubitavelmente traz e que também banalizam o Metal de uma forma que o enfraquece em muitos sentidos. Então cá estamos com esta e outras impressões sobre a cena metálica, leiam!!!

1 – Quando e como o “vírus” do Heavy Metal o fisgou? Até então que tipo de estética musical o agradava (ainda hoje continua ouvindo?) ?

Robson “Desgraça” – Eu tinha um primo mais velho que curtia Blues e Rock’n’roll e sempre que a gente se encontrava ele me mostrava uns LP’s de Bob Dylan, Eric Clapton, Camisa de Vênus, Raul Seixas e tal. Um outro cara que era primo de minha mãe tocava Rock’n’roll no violão, algo de pop rock que vigorava naquela época, me emprestava LP’s dos Rolling Stones e algo da carreira solo de Mick Jagger. Lembro também de uma tal de A Gang Bang que existia por aqui na época, mas sendo sincero, esta última eu nem me lembro como era o som. Essas duas figuras que colocavam os vinis para que eu ouvisse já morreram e, com certeza, mudaram os rumos de minha vida. Só que em 1989 outro fato importante ocorreu: morre Raul Seixas!

A repercussão deste fato mexeu demais comigo; eu era um garoto de 12 anos de idade e a partir daquele momento não era só um cara mais velho me mostrando discos de vez em quando, agora era hora de entrar de cabeça e comecei a curtir aquele som e admirar as ideias do “Maluco Beleza”. Um ano depois, em 1990, um cara que paquerava minha irmã ligou lá pra casa e o som dele tava alto. Ao invés de chamar minha irmã eu fiquei um tempinho ouvindo aquele som arrebatador. Quando minha irmã desligou o telefone eu falei a ela: “Rúbia, que som é esse que o cara no telefone tava ouvindo?” Ela disse que era Heavy Metal. E eu: “Mas por que o cantor canta parecendo um monstro?” Ela sem muita paciência não me explicou isso e sem detalhe nenhum (afinal ela não era conhecedora do assunto) me explicou que o cara era Headbanger, que Headbanger significava “batedor de cabeça”, que ele usava uns coturnos, se vestia de preto e tal. Pronto! Eu queria ser um Headbanger!

Depois disso até conhecer o Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple e comprar o “Somewhere In Time” do Iron Maiden foi um pulo. Ainda aos 13 anos eu trabalhei numa rede de supermercados que existia aqui chamada Paes Mendonça (Jaime já é um senhor de idade rsrsrsrsrs, sabe do que tô falando, né Jaime?) e na seção de discos vendia LP’s da gravadora Woodstock e algumas outras (ainda não existiam os CD’s). Era Grave Digger, Iron Maiden, Exciter, Running Wild, Kamikaze, Led Zeppelin… e no meio tinha uns Whitesnake, Motley Crue… Eu começava o expediente as 7 da manhã e chegava mais cedo pra ir para a seção de discos. A loja tava fechada e eu pegava vários LP’s, levava para ouvir na seção de aparelhos de som e curtia sossegado sem a presença dos clientes até dar o horário de subir para meu setor.

Continuo ouvindo muito Raul Seixas! Muito Blues! Led Zeppelin (é impossível descrever a sensação de ouvir pela primeira vez Black Dog. Naquela época isso soava pesado pra caralho porque o riff não tava banalizado como hoje. Aliás, Ramones soava pesado pra mim e pra muita gente daquela época)!!!!!, Deep Purple, AC-DC, Motorhead… e confesso que ainda coloco sim pra tocar o “Slave to the Grind” do Skid Row no toca-discos. Rolling Stones eu não ouço, não. Nem Mick Jagger solo. Devagarzinho fui me inserindo na cena local, compreendendo o underground, fui errando, acertando e lidando com aquele universo tão estranho e intrigante pra mim. Passo a passo fui compreendendo a coisa de maneira ideológica e amadurecendo enquanto Headbanger, enquanto ser humano dentro de uma cultura.

2 – Putz, viajei aqui meu camarada. Claro que lembro do Paes Mendonça kkkkk, da Modinha também, comprei muitos vinis tanto em um como no outro. Boa música seja ela qual for deve ser ouvida, eu sempre ouvi muito MPB e continuo ouvindo, não sigo regras impostas. Contudo em se tratando de Heavy Metal algumas aberrações e anomalias degenerativas não dão para atuar nem engolir. Ai vai um questionamento, eu particularmente gosto que o Metal incorpore e tenha influencias de outros estilos, se reinvente, enriqueça e nos proporcione novos horizontes. Mas como frisei muitas misturas dão em anomalias grotescas, bizarras. O que pensas a respeito?

Robson – Isso. No meu caso eu ouço coisas fora do Metal, mas sempre dentro do universo do Rock’n’roll ou sua origem (o Blues, por exemplo). Foi o meu começo, é minha história, sacou? Assim como você, me considero altivo demais pra ser tão obediente rsrsrsrsrs. Sobre incorporar outras influências eu acredito que o Metal não seria o que é hoje sem influência externa ao seu território. E aí eu volto ao Blues: O estilo criado pelo povo negro dos E.U.A. influenciou não só o nascimento do Rock’n’roll (a aceleração do Blues fez surgir o Rock), mas também o surgimento do Heavy Metal; O Black Sabbath quando começou não chamava aquilo de Heavy Metal.

Eles acreditavam que faziam uma espécie de Blues sinistro. Este estilo foi uma grande influência para o Metal, além de outros como a música Erudita (o que seria do Metal sem a música medieval?) e o próprio Rock feito pelos Hippies. E o surgimento do Black Metal? Só precisa compreender um pouco da história para a gente ter certeza de que a música Punk serviu de parâmetro; olha como as bandas de Black Metal afinam as guitarras! Aliás a cultura Punk foi paradigma para que hoje os Headbangers produzam zines e tenham uma postura política aguerrida frente ao sistema e suas regras! Uma postura aguerrida frente aos dogmas religiosos!! Nenhuma criação brota do nada! Criar é fundir!!! É catar influencias e colar uma na outra.

No entanto é preciso ter bom senso para que o estilo não morra porque se abrir a coisa pra qualquer sonoridade e se aceita uma liberdade arreganhada, aí a gente perde a essência da coisa. É preciso respeitar os limites do Metal para que ele continue existindo. Não dá pra trazer, por exemplo, uma proposta de som colorido, agradável aos ouvidos do senso comum, sem agressão ou choque ou sem sentimentos fúnebres ou sem uma maldade bem direcionada… Esse sonzinho de cabelos de shampoo cheiroso ao vento com mensagens otimistas/espíritas… definitivamente, não dá! É preciso ter alguma categoria de niilismo instalada ali!!! Não dá pra abrir espaço para ideologias avessas à rebeldia do Metal; não dá pra aceitar essa concepção de mistura expressada por um Andreas Kisser!

Uma mistura que põe os inimigos do Metal ao lado do Sepultura e afasta os Headbangers dele. Essa mistura conivente que faz o Sepultura participar daquela farsa política chamada Carnaval, que faz convocar um ícone da cultura pop, massiva e vazia – Carlinhos Brown – pra fazer a percussão do disco. A mistura superficial que coloca no mesmo palco a dissonância do som extremo e a frivolidade pseudo intelectual da música pop!!! E aí é que entra o papel imprescindível dos radicais. Sem os radicais o Metal não existiria mais (me refiro aos conscientes, somente a eles).

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3 – Assertiva bem realista, contundente. Ai me suscita vários questionamentos: é histórico que o Rock nasceu dentro da comunidade negra americana – segregada até os pentelhos dos cuelhos deles. Ai me vem uns babacas europeus pregando nazismo dentro do Black Metal e pasme com ramificações aqui em Pindorama – “país” miscigenado, paradoxo gritante. Metal para mim também é uma estética musical “marginal” e, portanto não tem necessidade alguma de seguir regras do sistema, sobrevive e se impõe sem ter que se submeter aos esquemas maquiavélicos e que somente visam auferir lucro$; evidente que isto não quer dizer que músicos e bandas não possam sobreviver de sua arte, mas daí promover palhaçadas como Sepultura (cadáver insepulto, já acabou e não sabem, puro the walking dead) e Angra em cima de trio elétrico é duro de engolir – se bem que o Stress o fizera antes e até pôs bloco na rua kkkkk.

Claramente a esmagadora maioria dos ditos headbangers (eu particularmente acredito que somos poucos de fato) não tem discernimento político claro, tanto que vejo muitos urrando dizendo que irão votar no Bolsoshit se este sair candidato à presidente em 2018. Um cristão de merda e que está num partido de merda, de direita até o talo (contradição pura apoiar uma aberração desta, afinal somos “marginais”, ou pelo menos deveríamos ser outsiders). Certamente no poder seriamos alvo fácil de sua política discriminatória; vi inúmeros babacas que “curtiam” Violator e agora detonam a banda por esta se posicionar com firmeza contra este felá da puta reacionário. Em suma um verdadeiro mar de lama…

Robson – Caralho! É exatamente isso! O que dizer depois de uma bordoada dessa? Eu ando muito angustiado com essa onda de extrema direita que varre o mundo. E essa turma que tá levantando bandeira de Bolsonaro deveria estudar história do Brasil pra saber realmente quem foi Getúlio Vargas, quem foi Filinto Müller, quem foi Plínio Salgado, quem foi Castelo Branco… pra fazerem uma ponte entre o que esses caras pregavam e quem se fudeu na mão deles, comparando com o que prega Bolsonaro; pra ver se conseguem resolver a equação e descobrir quem vai se fuder na mão do Hitlerzinho brasileiro caso esse senhor se eleja. Já tivemos experiência com regimes totalitários aqui e as barbaridades não eram cometidas somente com os denominados “inimigos subversivos comunistas”, não. Nesse bolo tinha gente que nada tinha a ver com a luta armada. Torturavam até crianças! Tudo em nome da ordem, do progresso, de deus, da pátria e da família!

Agora imagina um estilo de música que lida com satanismo, com rebelião, com paganismo, com ateísmo, com contestação política, com liberdade sexual e comportamental, com reflexões bem complexas… Tendo efervescência cultural – mesmo que no underground – num país cujo presidente chama-se Jair Bolsonaro! Que será que os bolsomínions pseudo headbangers acham que vai acontecer com eles? A questão é que essa rapaziada não sabe o que é cultura underground. Não sabe de onde vem isso. Qual é a história disso! Não sabem da simbologia do vestir preto, não entendem o significado que a dissonância tem para as sociedades desde a Grécia Antiga.

Eles acham que Metal e que underground é um tipo de música que eles ouvem no Youtube e compram uma camisa representando essa música que eles gostam. Parece que Metal é apenas o som pra eles. Não é identidade porque são vazios demais pra terem alguma avaliação ontológica. Não é luta porque são evasivos e coniventes com as regras do sistema! Não percebem que encaram o Metal como qualquer fã de Lady Gaga (não é a toa que o Metallica agora é unha e carne com ela). Como são conservadores!! A postura imbecil direitista não é aceitável nem no senso comum, quanto mais em movimentos undergrounds!!

No entanto eu acho que, entre nós Headbangers, essa tropa reacionária não é maior que os verdadeiros rebeldes!!! Metal ainda é um local de resistência!!!! Se eu não acreditasse nisso já teria largado. Mas mesmo que fosse apenas um inseto fascista, ainda assim seria revoltante e é por isso que eu acho que o pessoal do Violator tá certo em escancarar sua fúria contra esses vermes!!! É por isso que eu acho importante você dar espaço para esse tipo de assunto em seu site e todos que compreendem a essência rebelde, contestadora e marginalizada da cultura Metal não devem se esquivar desse problema! É preciso agir!! A gente não deve deixar ninguém transformar o Metal numa merda reacionária!!!

E o primeiro passo é se politizar mais. Os integrantes do nosso cenário precisam se politizar mais, precisam no mínimo buscar conhecimento histórico a respeito do movimento que participam; esse desconhecimento é o maior causador de cenas como aquela da banda Stress em cima de um trio tocando Coração de Metal em ritmo de carnaval com um monte de folião “metaleiro” batendo cabeça embaixo. Esse desconhecimento que faz com que muita gente legitime o white metal e não veja problema em show com financiamento do Estado e com logomarca da Polícia Militar. Quem é Headbanger de verdade precisa questionar essas coisas e parar de olhar como se isso não tivesse relevância.

4 – Pois é, verdadeira antítese, paradoxo, contradição, NADA HAVER cacete kkkk. Agora vamos focar sua atividade dentro da cena, uma luta (resistência ferrenha), resiliência e manutenção de um fanzine por tanto tempo e com conteúdo de qualidade. Quando tu decidiste partir para esta árdua e muitas vezes extenuante tarefa? Alguma vez pensou em desistir?

Robson – Eu comecei porque me sentia angustiado ao ver o Metal, em muitas situações, sendo
tratado como música pop. Eu via cada vez mais a TV abocanhando elementos do Metal e banalizando. A internet parecia querer transformar tudo num grande circo.E via muitos zines com ideologia inspirada naquelas “velhas e belas” revistas que todos nós comprávamos quando éramos pivete. Essa ideologia agia para minar a essência subterrânea do Metal. Muita gente que conversava comigo parecia achar aquilo tudo normal; eu parecia um chato! Decidi fazer algo pra não enlouquecer!!! Não que o Desgraça Zine fosse resolver o problema do underground em todo o universo!!!! Não, não! Não sou tão pretensioso assim!!!

Mesmo porque essa banalização segue seu curso. Mas aquela atividade ia aliviar minha angústia ao passo em que eu daria uma pequena contribuição ao cenário. Nunca imaginei que ia virar uma coisa desse tamanho! Um zine de 72 páginas, circulando por todo o país, alcançando dez anos. Quando tudo começou eu nem imaginava que iria organizar um festival comemorando esses dez anos. E nunca, nunca pensei em desistir porque o Desgraça Zine é a expressão de um traço muito forte na minha personalidade: Sou teimoso pra caralho! Tomei muita porrada quando era criança por causa de minha teimosia e pirraça!!!

5 – Em uma das edições do Desgraça Zine você “desceu a madeira” na MS Metal Press e seus tentáculos (seus selos, já que todos tem focos específicos de acordo os estilos das bandas que abriga). Eu já atuei neste segmento, mas não desta forma “organizada e profissional” e não vejo problemas se uma banda queira fazer isto, evidentemente que terá que gastar algum dinheiro – eu cobrava pelos meus préstimos e até penso em voltar, mas com pouquíssimas bandas. Contudo me incomoda, e muito, a divulgação maciça e de fatos irrelevantes, eu aqui no TheMetalVox limo muita “news” deste tipo, encheção de linguiça desnecessária. Incomoda também o fato de querer empurrar goela abaixo esta pratica mercantilista de mercado isso, mercado aquilo. Se fuder com porra de mercado, quantitativo querendo sobrepujar qualitativo. Heavy Metal não é produto industrializado cacete. Mas enfim, o dono é meu velho conhecido, mas eu discordo de muito do que ele faz, tanto é que pedi para me tirar do mailing list, além de outras promessas NUNCA cumpridas. Agora você foi na jugular, com cólera, porque teceu aquela matéria? Tem banda lá que você gosta….

Robson – Sim. Fui na jugular. Mas o site deles vai na jugular do underground também. Eu só reagi!!!! Não concorda? Que concepções são aquelas? Metal sendo tratado como produto numa prateleira de supermercado como um sabonete, um saco de batata frita? Headbanger como um mero consumidor, bandas como clientes!! Que é isso? Estamos no underground ou no shopping?Isso me ofende! Tenho sangue de Headbanger fervendo nas veias e vivo o underground metálico! Essa é minha vida! Tenho certeza que isso soa ofensivo a outras pessoas também. É nossa cultura! A visão burguesa precisa ser combatida e não endeusada!! Não é porque o mundo é burguês que devo assumir tais posturas. Tenho consciência de que o tentáculo do sistema nos encurrala a ponto do Metal precisar estabelecer relações com dinheiro, negociando, lidando com lucros, prejuízos e tal. No entanto underground serve pra resistir! Se não dá pra lutar contra o inimigo, a regra não é se juntar a ele, mas sim ser a unha encravada dele!

A gente precisa começar a questionar o modelo burguês que trata tudo como mercadoria. Por isso que o mundo é um lixo!!! Olha só: a saúde, por exemplo. Eles tratam como mercadoria e veja o que acontece. Veja nosso sistema de saúde; estrutura boa pra quem tem dinheiro e quem não tem se foda!!! Como uma mercadoria que está lá exposta na prateleira esperando você pegar desde que você tenha dinheiro. Habitação e Educação é a mesma coisa. Com a Cultura a coisa é podre também. A expressão simbólica de um povo ou de um pequeno grupo revela parte da identidade étnica. A expressão dessa identidade implica em autoconhecimento, autoestima também, força pra enfrentar as agruras do cotidiano, além de contribuir com o conhecimento, com a história… No nosso caso, serve também de espaço de resistência, de encontrar os seus pares num mundo medíocre que você rejeita! Veja como tudo isso é importante. Só que aí vem a mentalidade burguesa e diz que tudo é apenas negócio! Toda essa complexidade intelectual passa a ser tratada como apenas uma mercadoria. Qual a diferença entre essa maneira de tratar o Metal e a maneira como os empresários tratam Ivete Sangalo?

Definitivamente eu não acredito que banda underground deva ter assessoria de imprensa. Acho que Headbangers que possuem bandas devem ser autônomos! Devem comandar suas ações! Mas não creio que quem pensa diferente de mim deva ser condenado a morte. As bandas que fazem parte do cast dessas empresas, na minha opinião, estão equivocadas. Inclusive as bandas que curto. E digo o que penso a todos eles. Sou sincero e respeitoso; pra mim é muito fácil dizer “não concordo com você nisso, nisso, nisso e nisso”. Não pratico boicote porque respeito certas decisões embora eu não concorde (obviamente que algumas decisões merecem boicote sim). Minha pancada na assessoria foi pelo discurso! Foi pela ideologia expressada ali! Bandas que levantam tais bandeiras também recebem essas críticas.

6 – Outra matéria que não posso deixar de mencionar é a que você teceu sobre a frivolidade do uso da internet, destacadamente as redes sociais por muitos que se dizem headbangers – sinceramente caras que somente baixam musicas e não prestigiam um show, bandas da nossa cena adquirindo CD, vinis e demos físicos para mim nunca foram e nunca serão headbangers, consumidores de Metal podem até ser, nada além. Contudo não concordo com seu fudido em texto em 100%, 90 a 95% sim. Tanto é que atuo muito na internet há mais de quinze anos com webmagazine e a uso para divulgar os lançamentos do meu pequeno e humilde selo.

Robson – Porra! 90, 95% tá ótimo! Eu quero mais o quê? Rsrsrsrsrs… Querer obrigar você a concordar em 100% comigo é te subestimar!!!! E 95 é um percentual fantástico!!! Mas é mais ou menos aquela coisa que eu respondi na pergunta anterior. Eu posso expressar a convicção de que a internet abriu demais a coisa, entregando de bandeja o Metal pra quem não quer ter o esforço de descer até o submundo, pra quem é passivo, covarde, pra quem é cristão ou conivente com as regras do sistema. Posso pensar assim e não rejeitar seu convite pra responder questões num webzine aqui na internet. Porque apesar de levantar o tópico e questionar, eu estou lidando com uma ferramenta a serviço do underground, que tem seus méritos também!

Em nenhum momento no texto eu digo que devemos quebrar os computadores, cortar as cabeças das pessoas que frequentam redes sociais ou que gerenciam webzines! Aliás tomei todo cuidado porque sei que tem muito Headbanger de verdade lidando com essas coisas. Dou minha opinião e convido a todos para o debate, sacou? O lance é que muitas vezes as pessoas querem mostrar radicalismo e diante de algo que discordam precisam arrumar inimigos, fazer boicotes, cometer insultos!!! Claro que tem ocasião pra isso também! A fúria, o ódio são necessários! Mas é preciso ponderar as vezes; um cara que tem serviços prestados a causa necrounderground não deve ser esculachado por causa de algo que você considera um escorregão ideológico. É preciso saber ceder também! E bater forte quando a discordância estiver relacionada a assuntos mais graves. Quer exemplo? Envolvimento com nazismo, posturas fascistas, white metal, comercialismo desenfreado, posturas burguesas, falsidade nas atitudes (de dia vai pra igreja e de noite vai tocar Black Metal, sacou?) e por aí vai. Sei que é subjetivo pra caralho, mas a ideia aqui é mostrar que nem sempre é hora de sair dando bordoada. A internet é um terreno fértil para tais bordoadas! A gente ainda não aprendeu a lidar com isso de maneira mais inteligente.

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7 – Vamos voltar para nosso umbigo, à cena da Bahia. Notadamente mais forte em um som extremo: Black e Death Metal. Poucas bandas de Thrash ( a melhor ao meu ver é a Suffocation of Soul de Poções), quase nada de Doom e pouquíssimas de Metal Tradicional. O que torna a Bahia este celeiro de bandas extremas no seu ponto de vista?

Robson – Também curto muito a Suffocation of Soul! Bandaça! Mas vamos à questão: Eu acho que o mais normal em qualquer cena é a proliferação de bandas mais extremas; o motivo disso é a banalização do rife, da distorção, algo que faz o pessoal agredir mais na hora de meter bronca. Claro que cada região tem sua peculiaridade. Lugares como Santa Catarina, por exemplo, pendem mais para o Gore e Splatter (é isso? Ou impressão minha? Vejo o México desse jeito também). O Rio de Janeiro se notabiliza com um som extremo mais fincado nas raízes, nas bandas clássicas, abusando das citações simbólicas (e fazem isso de maneira magistral). Nós aqui na Bahia, pelo menos aqui na capital e no resto do Recôncavo, crescemos com a indústria do Axé e do Pagode dando no nosso pé de ouvido. Parece que há uma necessidade de se expressar da maneira mais odiosa com o intuito de declarar para o mundo que não pertence a essa cultura massiva de merda!

Aqui em Salvador, além dessa coisa da indústria produtora de mediocridade, temos alguns outros fatores que considero também fundamentais para explicar a nossa inclinação para a música extrema: O primeiro é a eclosão das igrejas neopentecostais; em cada esquina aqui tem um doente tentando te persuadir, tem alguém te fiscalizando, te mostrando o quanto você é pecador e merecedor do fogo do inferno. Morei em Aracaju e a realidade lá é diferente. Por mais que tenham neopentecostais por lá, o estresse deles é o catolicismo. Os dois anos e meio que passei em Brasília me fizeram ter uma rusga maior com o espiritismo. Fazer Metal extremo aqui, principalmente Black Metal, acho que tem uma de suas origens numa reação a esse dogma evangélico. O segundo fator importante que move a cena soteropolitana é algo que não considero legal. É o ressentimento. Ressentimento dos negros e mestiços favelados que sofrem racismo a vida toda, que são rejeitados pela classe média branca ou quase branca.

Por isso odeiam, odeiam e odeiam, mas sem saber porquê. Vão aos shows procurar encrenca, brigar e bater nos “playboys” (leia-se classe média branca ou quase branca). E ressentimento TAMBÉM da classe média branca ou quase branca que, por não viver no fio da navalha, muitas vezes é rejeitada pelos mais radicais e reagem frequentemente com um verminoso classismo e risíveis lições de liberdade advindas dos primórdios da Burguesia francesa. Pra mim é o pior dos ressentimentos! A onda agora é dizer que o Metal essencialmente é reacionário! Eles não querem uma cultural Metal! Querem a liberdade de nãoterem um chão pra pisar!!!
Parece-me que há uma dicotomia nessa adorável/desgraçada cidade e as sonoridades vão sendo produzidas sob a égide desse ódio mútuo e se misturando com a força da resistência à mídia, a força da resistência à pregação neopentecostal, além de fragmentos de diversos outros motivos aqui e ali. Claro que é preciso salientar que no meio dessa dança de cabeças cortadas tem muita gente que foge a regra. Há sim consciência entre muitos brancos e quase brancos de bairros nobres. Há sim consciência entre negros, mestiços favelados e periféricos. Como também há negros em bairros nobres (poucos, mas há), brancos e quase brancos em favelas. Eu sei que desse bolo doido aí sai muita banda foda! Algumas usando a música como competente válvula de escape para esse ódio, outras mesclando ódio e racionalidade. Apesar dos citados aspectos que necessitam de melhora, acho que, no frigir dos ovos, nossa cena dá um bom caldo.

8 – Agora é engraçada que boa parte desta cena extrema se concentra na Capital e, no entanto muitos shows de bandas locais, nacionais e gringas por vezes dão monumentais prejuízos. Mesmo que alguns bravos estejam resistindo e a frequência aumentando, porém é estranho ver pessoas que reclamam que Recife isto, Fortaleza aquilo não tiram seus rabos de casa para prestigiar quem se fode para produzir um show e trazem bandas excelentes. Putz Bolzer, Grave Miasma, Deformity BR, Escarnium e Vermis Mortem fizeram puta de um show. Contudo o público foi aquém das expectativas!!!.. Claro que eu não vou menosprezar o fato que Salvador há décadas ter praticamente vinte e cinco por cento de sua população economicamente ativa (dados do IBGE) desempregada. Contudo aqui se repete quadro de outros lugares onde uma horda de sacanas ficam na porta entornando cachaça, cerva, fumando maconha e cheirando pó e não entram nos shows…..

Robson – No início da década de 90 tínhamos poucos shows aqui, então quando pintava a oportunidade quase ninguém dava mole. Enchia!!!!! O cara podia não curtir a banda, mas se ele não fosse nessa oportunidade, quando iria pintar outra? Tudo bem que muita gente ficava do lado de fora tomando umas cervejas e tal, mas os shows davam mais público. Agora há mais facilidade com equipamentos, mais facilidade pra aprender tocar instrumentos e pra gravação de CD’s; com isso aumentou pra caralho a quantidade de bandas e consequentemente a quantidade de shows. Tendo essa quantidade toda de shows por aqui o cara se dá o direito de escolher ou se sente acuado a escolher (mesmo porque ninguém tem dinheiro pra pegar todos os eventos). Lembra da dicotomia que citei na pergunta anterior? Pois é! Tem gente que só comparece em show que ele tem certeza que os ultra-radicais não vão. Tem show que é visível a presença massiva dessa classe média branca ou quase branca e no meio aquela parcela que foge a regra, aquela parcela que não tem encrenca com ninguém. Por outro lado, há shows que a periferia vem com tudo, tendo também a parcela que não mora em favela, é Headbanger de responsa e odeia classismo. Até acho que essa separação acarretou numa diminuição da violência.

Mas a cena se fortaleceria muito mais se os diferentes se respeitassem. Já não basta a falta de grana? Já não basta a quantidade de desempregado nessa porra de cidade? Já não basta a turminha que vive no computador e não pisa num show? Não contribui com porra nenhuma para a cena andar, mas adora colocar nas redes sociais que é Headbanger (Headbanger o caralho!!!)!!! A gente tem que enfraquecer com essas cisões bizarras? Já tivemos aqui shows fenomenais e muitos deles os organizadores tomaram prejuízos históricos!!!! Sei que muita gente vai achar minha análise absurda, mas essa dicotomia classista e racial é um aspecto que existe e a maioria não quer enxergar! É algo que tá arraigado no inconsciente e difícil de detectar! É preciso um esforço que muita gente não quer ter. Falo disso há anos!!!! E Salvador não tá sozinha nessa, não. A crise abraça a todos, cada cidade brasileira tem seus problemas e o cenário underground do país todo vem sofrendo com públicos reduzidos.

9 – Seu trabalho no meu entender é excelente, agora tu já pensou em ter uma distro e ou um pequeno selo?

Robson – Rapazzzz… Cê acredita que pensei nisso ontem? Mas pelo menos por agora é impossível!!!! Minha vida é um corre-correescroto! Por que a pergunta? Tem alguma proposta milionária pra mim, é?? Háháháháháhá!!!!!

10 – Metalbrother agradeço sua atenção e celeridade em responder esta entrevista, uma honra para mim pessoalmente que atuando com webmagazines sei da suma importância dos zines tradicionais. Tanto que colaboro com alguns, estou editando um do meu humilde e pequeno selo/distro, apoio na medida das minhas possibilidades ($$$) com patrocínio. Fique à vontade, aliás nem precisa dizer isto já que você não tem papas na língua kkkkk.

Robson – A honra foi minha!!!! Eu é que agradeço o apoio de sempre!!! E como mensagem final, deixo aqui um forte abraço a você e aos leitores do The MetalVox!!! Continuemos a cuspir nos dogmas!!!! Rejeição a deus sempre!!!! Rejeição a qualquer tipo de apoio aos vermes white merda!!!! Fodam-se os fascistas e foda-se qualquer tentativa de enfraquecimento do Metal enquanto elemento de resistência!!!! Total apoio a cena Necro-underground!!!

Contato: robsoncostacarvalho@hotmail.com 

Por: Jaime “TheMetalVox” Amorim

ROBSON “DESGRAÇA” COSTA – tradição e inteligência em prol do Metal Reviewed by on . Conheci o Robson há bastante tempo atrás quando ainda morava em Salvador, não me recordo em qual show. Mantivemos contato e ele chegou a colaborar esporadicamen Conheci o Robson há bastante tempo atrás quando ainda morava em Salvador, não me recordo em qual show. Mantivemos contato e ele chegou a colaborar esporadicamen Rating: 0
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